Era um menino trigueiro. Andava descalço no sinal, mas já não sentia o calor do sol no piso betuminoso. Os pés estavam habituados a correr entre o verde o vermelho, galgando entre os carros, vendendo doces ou lavando vidros. Ele preferia vender doces. De vez em quando, algum motorista comprava 6 pelo preço de 3, mas deixava um para ele. Na lavagem dos vidros tinha que correr mais e o motorista ainda o olhava mal-encarado…
A vida dele era aquela. Não tinha grandes amigos… só aqueles três garotos do sinal. Nem falavam muito. Só riam, sem motivo. Não sabia a idade ao certo, mas alguém lhe disse que “João” era um nome que lhe ficava bem.
João gostava de desenhar na terra dos canteiros da avenida enquanto esperava o vermelho chegar. Não falava muito… preferia imaginar! “Quem será a menina que vai no cadeirinha de criança com o cabelo amarradinho? Deve ser bailarina. E o pai? O pai deve ser motorista do presidente. Sim. Que isso de ser motorista do presidente é muito importante. Qualquer presidente. Aquele outro sujeito? Tem tantas sacolas de supermercado no carro… até pode ser que seja o próprio dono do supermercado.”.
João esquecia destas coisas logo que o vermelho chegava. Corria para os carros, pendurava os doces nos espelhos… e se apressava para ver se alguém queria.
Vermelho, vermelho. João corre. Chega na janela do primeiro carro:
-Quanto é?
-Dois saquinhos por dois, quatro saquinhos por três, senhor.
-Me vê quatro. Como vc se chama?
Nunca um motorista tinha perguntado o seu nome…
-João... – respondeu acabrunhado.
-E então, João, vc. estuda? O que vai ser quando for grande?
-Estudo. Estudo sim, senhor. - Mentiu.
O sinal mudou e o carro arrancou com um sorriso e um agradecimento do tal senhor que lhe perguntou o nome.
“O que vai ser quando for grande?”
“Piloto de aviões, talvez presidente dos pilotos de aviões, médico… daqueles que salvam as pessoas. Um artista de fazer aqueles livrinhos de bonecos…”
João, que gostava de imaginar, ainda confuso, se olhava… e começou a sonhar.